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terça-feira, 30 de novembro de 2010

Vocações pervertidas

Vocações pervertidas
Um dia desses, numa palestra na Vila Ana Maria, município de Colombo, perguntamos que profissão os meninos queriam ter, algo em torno de 80% deles respondeu com entusiasmo: jogador de futebol. Alguns minutos mais tarde um jovem apareceu na sala preocupado, tinha ido fazer um teste num clube de jogadores profissionais, temia não ser aceito.
Na RMC (Região Metropolitana de Curitiba) temos excelentes escolas públicas e uma demanda enorme de profissionais. A carência de bons técnicos é enorme, e existem vagas para quem quiser ser pedreiro, eletricista, encanador etc. mas os alunos são relativamente poucos. Por quê?
A mídia em torno do futebol é imensa. Até o presidente da República volta a ser criança vestindo uma camiseta do seu clube. Na programação das TVs sob concessão privada, um tempo enorme é gasto em reportagens sobre clubes de futebol, jogadores, técnicos etc.
Jogadores bem sucedidos aparecem de brinquinhos e dirigindo carros de luxo. Conquistam as namoradas dos seus sonhos e partem para clubes que são galerias de promoção de egos e destruição de personalidades. O lado ruim disso tudo é, de vez em quando, a notícia de quando alguns deles escapam ao controle dos donos dos seus passes. Assim dão prejuízo...
Diante de tudo isso não seria natural procurar o caminho fácil da glória? Ela é possível, com certeza. Quantos, entretanto, serão os Pelés de amanhã? A fama e as lógicas do futebol, estimuladas ao máximo por aqueles que faturam fortunas com isso, desviam nossa juventude de profissões mais do que necessárias, urgentes, estratégicas, essenciais. Existem outros caminhos. E a garotada é motivada a trabalhar duro?
Nos bairros mais pobres os traficantes mandam e mostram sucesso material. Gangues impõe terror e o medo de assassinatos é onipresente. Afinal, se algum cidadão humilde é assassinado aparece, talvez, em alguma reportagem das páginas policiais e vira estatística. O Governo dá pouquíssima atenção aos bairros, a segurança é um pesadelo. Para não morrer, o jeito é silenciar, apoiar discretamente o tráfico e rezar para que um dia as coisas melhorem. Talvez as reportagens padrão Rede Globo motivem nossas autoridades...
A cidade do Rio de Janeiro mostra cinematograficamente onde podemos chegar e dizem que o filme “Tropa de Elite 2” é sensacional. Não fomos ver porque conhecemos bem essas histórias e a realidade à nossa volta mostra tudo isso diariamente.
Há alguns anos, viajando de ônibus em Santa Catarina, ficamos ouvindo, naqueles tempos ouvíamos bem, um cidadão falando exaltadamente com a pessoa ao seu lado. O irmão daquele passageiro da vida fora assaltado, assassinado e seu caminhão roubado. Provavelmente esse senhor que viajava podia gastar seu tempo investigando, procurando os bandidos. Ele simplesmente disse, ao final, que desistira quando descobriu que os chefes da quadrilha que roubara e matara seu irmão eram altas autoridades federais... Seria verdade?
Vivemos num país estranho. Poderia ser belo, forte e rico. Não haveria um brasileiro passando fome, sem casa, saneamento básico, escola etc. se a fraternidade, honestidade e visão objetiva de Governo imperassem. Infelizmente ganhamos lógicas de desprezo ao povo e nessa onda hoje temos duas classes de pessoas, aquelas que devem cumprir as leis e as outras.
Gente pobre também sonha com facilidades. As prisões de garotos, jovens ainda imberbes e rostos endurecidos pela criminalidade demonstram, no Rio de Janeiro, a vivo e a cores, a que ponto chegamos. Favelas imensas, feitas sem qualquer capricho, mas demonstrando muita competência, afinal resistem às chuvas, abrigam centenas de milhares de brasileiros cujos sonhos talvez sejam conquistarem a fama jogando futebol ou se entregando ao comércio de drogas, ou se Deus permitir, um dia poderem viver sem medo e trabalhando honestamente. A criminalidade no mínimo dá mídia, dinheiro e prestígio na vila, ainda que, para os bandidos, uma vida extremamente curta...

Cascaes
28.11.2010

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