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sábado, 18 de dezembro de 2010

Droga barata, miséria cara

Os alquimistas “pretendiam a transmutação dos metais inferiores ao ouro, o outro a obtenção do Elixir da Longa Vida, um remédio que curaria todas as doenças e daria vida longa àqueles que o ingerissem. Ambos os objetivos poderiam ser atingidos ao obter a pedra filosofal, uma substância mística. Finalmente, o terceiro objetivo era criar vida humana artificial, os homunculus (Wikipédia)”. Graças a essa preocupação a Humanidade teve um braço importante no seu desenvolvimento tecnológico e a Química pode ser considerada filha direta dessa fase do conhecimento humano.
Modernamente temos a lógica invertida dos alquimistas. Um dos subprodutos do conhecimento humano é, agora, a possibilidade de se produzir drogas alucinógenas a baíssimo custo, drogas potentíssimas que viciam rapidamente, escravizando e destruindo sua vítima.
Graças às facilidades do contrabando da cocaína (querem até duplicar a Ponte da “Amizade”) vivemos um crescendo macabro de consumo e multiplicação de viciados facilmente visível em nossas cidades e até em áreas rurais, onde, conforme dizem alguns amigos, impera sem controle.
Produzir “derivativos” da cocaína levou essa indústria bandida ao crack, uma pedra nada filosofal, mortal da pior maneira. Transforma crianças, jovens e adultos em homúnculos antes de matá-los de um jeito ou de outro.
Reportagens recentes mostram meninas e meninos viciados em crack. Seus corpos raquíticos ilustram o inferno em que mergulharam. Crianças abandonadas é o espelho de uma sociedade cruel e desatenta a esse pesadelo, apesar de muitas repartições públicas que, nominalmente, deveriam enxergar e fazer mais do que nossos repórteres.
De norte a sul, leste a oeste do Brasil pode-se encontrar essa praga, que por ser de baixo custo, tornou-se acessível a qualquer pessoa, atacando cruelmente as crianças de rua, as mais pobres.
Temos, pois, um produto que faz a riqueza dos traficantes (principalmente dos maiores, sempre bem protegidos), é ouro para eles, e a desgraça para dezenas ou centenas de milhares de pessoas. Com certeza uma praga colossal, agora universal graças ao livre comércio, tão desejado pelos titãs do século 19, quando, inclusive, promoveram as Guerras do Ópio, ocupando espaços estratégicos na China que só largaram recentemente.
A Alquimia, agora a Química, pode, contudo, ser a solução para a minimização dessa desgraça. A criação de produtos para inibir ou criar repugnância às drogas será infinitamente menos custoso do que a perda de tantos seres humanos. Investir em policiamento moderno, inteligente, é o caminho bélico. Finalmente teremos que resolver carências de Educação e a necessidade de salvar nosso povo de sua maior praga, a miséria.
É interessante ver como as pessoas se assustam com o uso do crack, mas só pensam nas crianças pobres no Natal ou na Páscoa. Não incomoda saber que em volta das cidades existem casebres e famílias comendo restos de lixo, que colheram durante o dia em longas caminhadas, puxando carrinhos que atrapalham o trânsito dos belos automóveis que marcam o “progresso” de nossa sociedade.
Pior ainda, mais uma vez de acordo com as lógicas capitalistas mais radicais revoltam-se contra programas sociais e as lógicas distributivistas.
Aos poucos, aqui no Brasil com certeza, percebemos que precisamos de mais e mais policiais, de proteção contra pessoas desesperadas ou alucinadas ao volante, embriagadas por essa ou aquela droga.
Precisamos urgentemente de mudanças de comportamento e diretrizes mundiais mais racionais. Fortunas são gastas em armamentos, exércitos, templos, luxos e desperdícios, poderiam ser melhor usadas a favor do ser humano. Diante dos progressos tecnológicos devemos ficar preocupados com produtos futuros, onde poderemos até ser vítimas de gases viciantes, que aspiraremos sem saber. Com a Ciência aplicada para o bem da Humanidade, entretanto, talvez tenhamos soluções químicas contra as drogas.
A erradicação ou redução substancial da miséria material dependerá da evolução cultural dos povos. Isso será possível?

Cascaes
15.12.2010

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